18 outubro 2018

Censura em ação


No Brasil, durante a odiosa ditadura militar, Chico Buarque e Gilberto Gil não podiam cantar Cálice

14 outubro 2018

António Nogueira


Descida da Cruz, 1564, óleo sobre madeira de António Nogueira (?–1575), Museu Rainha D. Leonor, Beja, Portugal

António Nogueira foi um pintor maneirista português, sobre o qual não se sabe onde e quando nasceu. Sabe-se apenas que exerceu quase toda a sua atividade na segunda metade do séc. XVI, em Évora, e faleceu na mesma cidade no ano de 1575.

A corrente artística do Maneirismo, ao contrário da do Renascimento que a precedeu, não buscava a perfeição nem a beleza ideal, antes as sacrificava em favor de uma maior expressividade. Os artistas maneiristas não hesitavam em distorcer o objeto da sua arte, desde que com isso conseguissem obter um maior efeito dramático. A sua arte não era feita para agradar, mas sim para impressionar. É o caso do painel acima reproduzido, que está muito longe de ser "perfeito", mas que é um excelente exemplar de arte maneirista. Socorro-me das palavras de Joaquim Oliveira Caetano, que sobre ele escreveu:

(...)nos painéis de Beja, nomeadamente no Descimento da Cruz, (...) Nogueira mostra uma pintura bastante evoluída, dentro dos padrões maneiristas, com uma composição esvaziada de profundidade, uma tensão enorme no jogo das figuras e uma composição agitada entre volutas de panejamentos e de poses que se desenvolvem sobre a triangulação das escadas suportadas pela Cruz.

09 outubro 2018

A Fiandeira

Fazes bem mal, fiandeira,
Em fiar de noite e dia
Essa linhagem grosseira!
Mal empregada canseira
Que tem na vida quem fia!

Eu fui também fiandeiro:
Fiava ternos cuidados
Em vez de linho trigueiro…
Fez-se-me a roca em bocados
E já não sou fiandeiro!

Passava os dias fiando!
E só tristezas e dores
Ia no fuso enrolando…
Ai, antes no linho brando
Do que fiar em amores!

Chega-se ao cabo do dia
E a roca, por espiar,
Sempre da mesma maneira!
E vem depois a canseira,
E acaba a gente a chorar
Sobre a mortalha que fia!

Mal empregada canseira
Que tem na vida quem fia!

João Saraiva (Porto, 1866 – Lisboa, 1948)


A Fiandeira, canção de David de Souza (1880–1918) sobre poema de João Saraiva (1866–1948), por Ana Leonor Pereira (soprano) e António Ferreira (piano)

07 outubro 2018

Escarigo, Figueira de Castelo Rodrigo



Pelo tratado de Alcanizes, celebrado em 1297 entre o reino de Portugal e o reino de Leão e Castela, as terras de Riba Coa passaram a fazer parte do território português, em troca de outras terras que passaram para mãos castelhanas e leonesas. Este tratado determinou a marcação definitiva da fronteira portuguesa, que prevalece até à atualidade, salvo a cidade de Olivença que continua sob domínio espanhol, embora Portugal continue a reivindicar o seu direito sobre ela. A região de Riba Coa, assim tornada portuguesa, compreende os atuais concelhos de Sabugal, Almeida, Pinhel, Vila Nova de Foz Coa e Figueira de Castelo Rodrigo.

As terras de Riba Coa são, de uma maneira geral, terras pobres, pedregosas e áridas, pois não são mais do que o prolongamento para oeste da Meseta Ibérica, um planalto que abrange uma grande parte do interior da Península. Podemos também dizer, de um modo grosseiro, que esta região se vai tornando cada vez menos pobre e menos pedregosa à medida que caminharmos de sul para norte. Assim, os concelhos de Vila Nova de Foz Coa e de Figueira de Castelo Rodrigo são, de uma maneira geral, mais férteis do que os seus vizinhos a sul, com uma produção agrícola em que prevalece o cultivo da oliveira, da amendoeira e da vinha. Esta maior fertilidade implica um maior desafogo económico das suas populações e, consequentemente, uma maior riqueza das igrejas e conventos existentes nestes concelhos.

No caso do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, para além da vila histórica de Castelo Rodrigo, que foi reabilitada há poucos anos, podemos destacar alguns monumentos tais como a igreja de Escalhão (aconselho uma cuidada visita ao seu interior), a igreja matriz da própria sede do concelho, o convento de Santa Maria de Aguiar e a igreja matriz de Escarigo, que é dedicada a São Miguel.

Sem desprimor para as outras igrejas referidas, permito-me destacar neste momento a de Escarigo, situada numa povoação com este nome que fica muito próxima da fronteira com Espanha. O que esta igreja tem de mais notável é, talvez, o altar-mor barroco que contrasta com o seu teto mourisco. O teto deve ser do séc. XVI e o altar-mor do XVIII. Socorro-me de José Saramago, que no seu livro Viagem a Portugal escreveu melhor do que eu poderia alguma vez fazê-lo:

A igreja tem um retábulo barroco dos mais belos que o viajante viu até agora. Se tudo isso tivesse o vulgar e banal dourado-uniforme, não mereceria mais do que um olhar a quem não fosse especialista. Mas a policromia da talha é tão harmoniosa nos seus tons de vermelho, azul e ouro, com toques de verde e róseo, que se pode estar uma hora a examiná-lo sem fadiga. Quatro pelicanos sustentam o trono, e a porta do sacrário mostra um Cristo triunfante, numa moldura de anjos e volutas. E os anjos tocheiros ajoelhados que ladeiam o altar, vestidos de grandes flores e palmas, são uma admirável expressão de arte popular. Uma das imagens do retábulo é um S. Jorge famosíssimo que, sem espada nem lança, calca aos pés um dragão com cabeça de víbora. Num altar lateral há colunas de talha quase já sem pintura, com duas cabeças de anjos em alto-relevo, que são preciosa coisa. Não esquece o viajante o tecto da capela-mor, de alfarge, mas os seus olhos vão ficar em duas pequenas tábuas esculpidas, predelas de um retábulo, mostrando uma Anunciação e uma Visita da Virgem a Santa Ana, de tão puro desenho, de composição tão sábia, ainda que ingénua, que ficou contente de ter vindo de tão longe, lutando por uma chave que se esquivava, mas isso já lá vai, agora está em boa conversa diante deste S. Sebastião mutilado da sacristia, talvez o primeiro por quem o viajante se toma de afeição.

04 outubro 2018

António Manuel da Fonseca


Eneias Salvando seu Pai Anquises do Incêndio de Tróia, 1855, óleo sobre tela de António Manuel da Fonseca (1796–1890). Palácio Nacional de Mafra, Mafra, Portugal

António Manuel da Fonseca foi um pintor neoclássico português natural de Lisboa, cuja longa vida se estendeu por quase todo o séc. XIX. Produziu uma vasta obra pictórica versando, sobretudo, temas da antiguidade greco-romana, retratos de diversas personalidades e cenas históricas. Ocasionalmente fez também alguma escultura. Foi um artista muito apreciado e aclamado no seu tempo, a ponto de ser, nomeadamente, mestre de pintura do futuro rei D. Carlos, que foi, ele mesmo, um pintor de muito mérito também.

02 outubro 2018

Um Cristo feminino?



No primeiro instante em que virmos esta pequena escultura de marfim, julgaremos estar em presença de uma imagem de Cristo crucificado. Só a seguir notaremos que esta figura tem formas femininas e até um colar no pescoço! «O que é isto?! Um Cristo feminino?!», espantar-nos-emos, «Que figura é esta, afinal?» Isto é um pequeno pingente de marfim, feito para ser trazido ao peito como uma medalha, datado do séc. XVIII e proveniente do reino do Congo, ao que tudo indica no que é hoje Angola. Pertence a uma coleção privada.

Na transição do séc. XVII para o séc. XVIII, a captura e tráfico de escravos atingiam proporções pavorosas em África e o reino do Congo encontrava-se mergulhado numa guerra civil, onde se digladiavam três pretendentes ao trono. Foi no meio deste apocalíptico cenário que nasceu uma mulher que viria a desempenhar um papel muito importante na história do referido reino: Kimpa Vita.

Kimpa Vita (de seu nome de batismo Beatriz) foi uma profetiza que arrastou inúmeros seguidores no reino do Congo. Dizendo-se possuída por Santo António, Kimpa Vita pregou, por exemplo, que Jesus Cristo, Maria e outros santos católicos, como S. Francisco, tinham sido realmente bacongos. Fundou aquele que terá sido o primeiro movimento messiânico congolês, dois séculos antes do surgimento de outros movimentos messiânicos, como o Kimbanguismo e o Tocoísmo (fundados, respetivamente, por Simon Kimbangu e Simão Toco), os quais ainda existem, são muito respeitados e têm muitos milhares de crentes. O movimento criado por Kimpa Vita foi denominado Antonianismo, dada a importância que ela atribuiu a Santo António.

Do ponto de vista político, Kimpa Vita juntou-se ao campo de um dos pretendentes ao trono, chamado D. Pedro. Atraiu muita gente para a causa de D. Pedro, ajudando assim este a ganhar vantagem sobre os seus rivais e a tornar-se rei do Congo, como D. Pedro IV. D. Pedro, no entanto, recusou seguir a doutrina que Kimpa Vita pregava e ela passou-se para o campo de um rival, que também recusou ouvi-la. Enquanto isso, ela atraía cada vez mais seguidores e passou a ser crescentemente vista como uma ameaça. Acabou por ser capturada pelas tropas leais a D. Pedro IV e condenada à morte por "heresia" e "feitiçaria", com a cumplicidade de missionários capuchinhos. Foi queimada numa fogueira em 2 de julho de 1706. As suas cinzas foram queimadas uma segunda vez, para que o povo não as usasse como relíquias.

Aqui está a explicação para a figura representada neste pingente de marfim: não é Jesus Cristo, mas sim Kimpa Vita, ou Dona Beatriz como também foi chamada. Ela não está representada numa cruz como Jesus Cristo, mas muito provavelmente amarrada no cimo da pira em que iria morrer queimada. Só o anónimo artista que esculpiu esta figurinha é que poderia dizer qual a razão pela qual representou Kimpa Vita de forma a parecerse com Cristo.