06 maio 2026

Música andalusa (com S)


Um trecho de música andalusa de Marrocos, por intérpretes não identificados. Ao ver neste vídeo um friso de lindas mouras, não posso deixar de evocar as muitas lendas existentes em Portugal de mouras encantadas, por cuja beleza os cavaleiros cristãos se perdiam de amores

Quando os Árabes invadiram a Península Ibérica, puseram-lhe o nome de Al Andalus. É provável que este nome tenha a sua origem na denominação de um dos povos germânicos que invadiram o Império Romano do Ocidente e provocaram a sua queda, os famosos Vândalos, que, após terem sido derrotados pelos Suevos, se fixaram no sul da Península, atualmente chamado Andaluzia (com Z). Do sul da Península Ibérica, os Vândalos passaram-se para o Norte de África, onde fundaram um reino, o Reino dos Vândalos, que os Árabes posteriormente conquistaram. O nome Al Andalus, portanto, deve significar algo como "Terra dos Vândalos".

Independentemente do seu significado, o nome Al Andalus passou a ser usado para designar a parte da Península Ibérica que esteve sob domínio islâmico, qualquer que tenha sido a sua configuração política ao longo do tempo: o Califado de Córdova, os reinos independentes chamados "taifas", o Império Almorávida, o Império Almóada, o Reino de Granada, etc. Com conquistas e reconquistas e com avanços e recuos, os reinos cristãos foram progressivamente tomando território aos muçulmanos e, consequentemente, o nome Al Andalus foi designando uma parte cada vez mais restrita da Península Ibérica. Em 1492, Castela conquistou por fim o Reino de Granada e a designação Al Andalus caiu em desuso. Agora, só se encontra este nome em textos de História.

A seguir à conquista de Granada por Castela, os muçulmanos do reino conquistado, que não quiseram ser obrigados a trocar a sua fé pela fé cristã, tiveram que fugir e refugiar-se no Norte de África. Os seus descedendentes continuam, ainda hoje, a chamar-se andaluses e constituem uma comunidade que é muito respeitada em Marrocos. São considerados os únicos marroquinos de raça branca, porque provieram da Europa (os restantes dizem-se africanos de ascendência berbere, e não brancos), falam árabe puro e não dialeto magrebino, conservam a cultura que os seus antepassados trouxeram da Península Ibérica e os homens andaluses são facilmente identificados na rua pela indumentária branca que tradicionalmente vestem.

Agora surge a dúvida: a música que no tempo dos mouros se praticava em Silves, Beja, Lisboa e até em Coimbra, ou mesmo em Lamego, teria alguma semelhança com a música do vídeo? É que já se passaram muitos séculos! Seja como for, o vídeo dá-nos a ouvir música andalusa, tal como ela atualmente se canta e toca, e que é um dos vários géneros existentes de música clássica árabe.

03 maio 2026

Liberdade


(Foto de autor desconhecido)

Antes que a ideia de Deus esmagasse os homens, antes dos autos de fé, das perseguições religiosas da Inquisição e do fundamentalismo islâmico, o Mediterrâneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das ameaças dos Profetas: na barca da morte até à outra vida, como acreditavam os egípcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebração de cada coisa: a caça, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e não o terror da morte.

Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisição, antes dos massacres da Argélia, o Mediterrâneo ergueu uma civilização fundada na celebração da vida, na beleza de todas as coisas e na tolerância dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto é nosso e pertence-nos — por uma única, breve e intensa passagem. É a isso que chamamos liberdade — a grande herança do mundo do Mediterrâneo.

(…) [Q]uem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.



Miguel Sousa Tavares, escritor, jornalista e comentador político

01 maio 2026

Primeiro de Maio

Primeiro e único
Verdadeiro
Maio acordado
Maio maduro
Penoso
Duro
Nunca vergado.

Floresta de braços e abraços
Festa dor do Maio primeiro
Carne e alma
Seio fecundo
Onde corre o leite
que alimenta o mundo.

Ir e voltar
Voltar a ir e a vir
Entre a dor e a alegria
Penoso caminho da vida inteira
Para prender um braço de sol
Entre a noite e o dia.

Mãos crispadas
Calejadas
Calor que os filhos aquece
Na esperança de outros sóis
Calar da fome que os adormece
Entre o antes e o depois
Da luta que não esmorece.

Maio de medos e canções
Maio de sempre
Maduro Maio
No fundo dos corações
Terra e vida
Vida dos que amam a terra
Antes morta que vencida.

Na palma da mão
Aberta e solidária
Festa da alegria
Maio dor e lágrimas
Renascido Maio
Nunca Maio da agonia.

Sol inteiro roubado
Sol do acordar de Maio
Vermelho e quente
Sol que é de todos
Maio de sol nascente.

Adão Cruz, médico, pintor e poeta


O primeiro Primeiro de Maio em liberdade na Avenida dos Aliados, cidade do Porto, ano de 1974 (Foto: Pereira de Sousa)
(Clicar na imagem para ampliá-la)