17 março 2026

Easy to Love


Easy to Love, um tema musical de Cole Porter, pela cantora de jazz Sarah Vaughan (voz e estalidos com os dedos), Mundell Lowe (guitarra elétrica) e George Duvivier (contrabaixo). Gravado em 1961

15 março 2026

A Dança da Vida Humana


A Dança da Vida Humana, óleo sobre tela do pintor francês Nicolas Poussin (1594-1665). Wallace Collection, Londres, Reino Unido
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O pintor Nicolas Poussin foi o fundador da escola francesa do Classicismo, que se caracterizou pela harmonia, pela claridade e pela procura de uma beleza ideal. Esta corrente nasceu como reação à aparente irracionalidade do Maneirismo, que lhe antecedeu, e em oposição aos excessos do Barroco, com o qual coexistiu. Contemporânea da extraordinária obra barroca de Caravaggio e de Rembrandt, por exemplo, a corrente classicista teve em Nicolas Poussin e no italiano Annibale Carracci dois dos seus mais destacados representantes. O quadro A Dança da Vida Humana, de Nicolas Poussin, nomeadamente, tem em si os ingredientes próprios do Classicismo do séc. XVII.

No centro e preenchendo boa parte do quadro, quatro pessoas que dançam em roda chamam a nossa atenção imediata, mas não são elas as figuras mais importantes desta pintura. A figura mais importante é o Tempo, simbolizado pelo velho alado, calvo, de barba branca e tocando um instrumento musical, que se vê à direita. É a música tocada pelo Tempo que faz os humanos dançar.

Bem no centro do quadro, a figura humana mais destacada, das quatro que dançam em roda, é uma mulher que representa a Riqueza, com o seu cabelo ornamentado de pérolas e com sandálias douradas nos pés. À esquerda está outra mulher, que lança um olhar malandro e sedutor para nós. Simboliza o Prazer. De costas, vê-se o único homem da roda, descalço e com uma coroa de louros na cabeça. Representa o Trabalho. À direita está uma terceira mulher, também descalça e com um pano enrolado na cabeça. É a Pobreza, à qual a Riqueza parece ter relutância em dar a mão.

No extremo esquerdo do quadro vê-se uma coluna com duas cabeças esculpidas em sentidos opostos. Uma cabeça olha para o futuro e a outra volta-se para o passado. Sentado no chão ao pé da coluna, um menino faz bolas de sabão, em representação da efemeridade da vida humana. No outro extremo e também sentado no chão aos pés do Tempo, outro menino segura uma ampulheta, lembrando-nos que o tempo escorre sem cessar.

Na parte superior do quadro e pousada sobre uma nuvem, uma outra composição pictórica surge em tons mais ou menos esfumados. De pé sobre um carro puxado por quatro cavalos e envolto por uma circunferência, que representa a eternidade, está Apolo, o deus que determina a sucessão dos dias e das noites. À direita, voando à frente do carro de Apolo, está a Aurora, espalhando flores brancas sobre a terra. Acompanhando o carro de Apolo e no seu rasto, um cortejo de figuras femininas simboliza a sucessão das Horas.

Uma paisagem imaginária e bucólica serve de fundo a todo este conjunto de figuras alegóricas e preenche os espaços vazios da tela.

Em suma, a composição deste quadro apresenta-se-nos de forma harmoniosa e clara, como é timbre do Classicismo.

08 março 2026

Confecção de um poema esfarrapado


confessou: «sou uma aranha preguiçosa.» na época eu representava, p'ra mim mesmo, o papel de andarilho-pedinte. gostei da única teia daquela aranha — ia de encontro à minha ideia de desobjecto. era uma teia muito rota, tinha mais buraco que fio: «é p'ra poupar baba», explicou a aranha, enquanto arrastava um pouco mais a posição. «você gosta de fazer poemas?, leve essa teia consigo. ela apanha mais pessoas que moscas. e responde bem a desejos idiotas.» quis agradecer à aranha, mas ela: «agora desvie-se do caminho do sol.»

hoje em noite imito a aranha preguiçosa: por vezes deixo essa teia aberta no meio de nenhuma tarde. por vezes estendo a teia numa madrugada brilhante. de manhã encontro na teia fiapos inexplicáveis da natureza e da natureza das pessoas. guardo sempre no bolso um pouco da baba que essa aranha me ofertou. com fios dessa baba faço remendos nesses fiapos, tal igual a tia maria fazia aquelas almofadas bonitas na sala da nossa infância. a confecção de poemas a partir de fiapos inconcretos é uma arte diferente da feitura de almofadas, até porque as almofadas podem ainda ter utilidade apalpável.

tenho pena que a tia maria não tenha cruzado a berma da estrada desta aranha. incríveis almofadas teriam ornamentado a nossa infância…


Ndalu de Almeida, escritor angolano que usa como pseudónimo literário Ondjaki


(Foto: skeeze/Pixabay)

06 março 2026

Esta maneira de chorar dentro de uma palavra


Crianças khoisan ou bosquímanas, que no sueste de Angola são chamadas kamussekele (Foto de autor desconhecido)

Em 1971, em Angola, depois de uma acção de pirataria

(pirataria era os helicópteros sul-africanos deixarem a tropa a quatro metros do chão e destruir tudo)

fiquei com uma menina kamessekele que sobrou, não sei como, daquela benfeitoria. Os kamessekeles são um povo amarelado que se exprime numa espécie de estalinhos da língua e sons vindos do fundo da garganta. A menina devia ter cinco ou seis anos, o cabelo ruivo da fome e empurrava adiante de si uma barriga imensa.Viveu comigo algum tempo, na enfermaria que era uma casa em ruína num sítio chamado Chiúme. A barriga diminuiu e o cabelo tornou-se escuro. Dentro do arame farpado, para onde quer que eu fosse, vinha atrás de mim.

Um dia, ao voltar da mata, não a encontrei. Não me deram explicação alguma. Para quê? As coisas passavam-se dessa forma e acabou-se. Mas demorei muito tempo a esquecê-la e ainda me lembros dos seus olhos que não exprimiam nada. Se calhar os meus olhos também não exprimiam nada. O que poderiam exprimir? Visitávamos o barraco onde os caixões esperavam e perguntávamos

— Qual vai ser o meu?

Não deitados, caixões de pé contra a parede, todos iguais. Também me lembro do sopro do maçarico a soldá-los, o que se fazia o mais cedo possível dado que os mortos apodrecem depressa naqueles lugares de calor

— Qual vai ser o meu?

e no dia seguinte os helicópteros de novo. Uma ocasião trouxeram uma mulher grávida. Um oficial que andava connosco nessa altura empurrou a mulher para o armazém dos caixões e, à minha frente, obrigou-a a colocar um dos pés sobre uma urna e penetrou-a sem baixar as calças, abrindo a breguilha apenas.

Noutra ocasião apanhou-se um guerrilheiro só com uma perna. Para ali estava sentado no chão, de pedaço de corda amarrado ao pescoço. Isto foi em Gago Coutinho. Quando se saía, colocava-se o inimigo no guarda-lamas do rebenta-minas e ele gritava de pavor o tempo inteiro. Desapareceu também.

Tudo era muito atreito a desaparecer nessa época, tirando aqueles que o chefe da Pide enforcava numa árvore e lá ficavam. Também me lembro dos pés dos enforcados mas não de uma forma tão clara. Isto foi numa aldeia chamada Chiquita. O chefe da Pide de Gago Coutinho, em contrapartida, era mais civilizado: preferia aplicar choques eléctricos nos testículos e num gesto de simpatia convidou-me a assistir. Esse acto designava-se por reeducação. Se um reeducado morria enterrava-se em cima de uma prancha.

Tudo estava reduzido a pontos: uma arma apreendida tantos pontos, um canhão sem recuo tantos pontos, um inimigo tantos pontos. No caso de conseguirmos um certo número de pontos mudavam o batalhão para um lugar mais calmo, e foi quando nos mudaram para um lugar mais calmo, sem guerra, que os soldados principiaram a suicidar-se.

Uma noite entrei no lugar dos beliches. Um cabo na cama de cima encostou a G3 à base do queixo, disse

— Até logo

e disparou. Em Maribanguengo. Bocados de miolos e de osso espalmaram-se no zinco do tecto e ele durou três horas, sem metade da cabeça, a deixar de repirar. Também me lembro do

— Até logo

e do disparo, mas houve tantos disparos em Angola que talvez o que lembro não fosse o dele. Tantos disparos como os ruídos das folhas dos eucaliptos de Cessa.

Em Marimba um dos lavadeiros roubou uma camisa a um alferes. Os lavadeiros teriam quinze anos se tanto. Então estenderam-nos lado a lado e deixaram-lhes cair brasas de cigarro em cima. Isto sucedeu pouco antes de nos virmos embora para Portugal. Visto que ficaram cheios de marcas e de pústulas pediu-se conselho a um agente da Pide que solucionou o problema depois de repreender brandamente o alferes sugerindo-lhe que daí em diante fizesse as coisas como deve ser.

A semana passada um homem procurou-me no hospital. Trabalhava com o rádio e foi ele quem me anunciou o nascimento da minha filha, que só vários meses depois encontrei. O rádio tinha sido um quase garoto então, e dei com um quase velho.

Mostrou-me o retrato do último jantar da Companhia. Quase velhos todos, impossíveis de reconhecer na sua quase velhice. Ele apontava e dizia os nomes, o furriel Este, o sargento Aqueloutro, a estudar o retrato com ternura.

Entre eles, acho eu, o maqueiro com quem andei na picada a segurar os intestinos nas mãos e a estendermos numa espécie de oferenda. Observei o furriel Este e o sargento Aqueloutro. Aí estavam a sorrir, quase velhos, quase alegres, agarrando-se pelos ombros e no entanto deu-me a impressão que os olhos deles continuavam a não exprimir nada, conforme os olhos da menina kamessekele não exprimiam nada. Ou se calhar os olhos dos quase velhos exprimiam. Eram brancos, não pretos, e o facto de não exprimirem nada pode muito bem ter sido defeito do fotógrafo.



António Lobo Antunes (1942–2026), in Segundo Livro de Crónicas

04 março 2026

Música de Vicente Lusitano


O agrupamento vocal norte-americano Chanticleer interpreta o moteto Ave, spes nostra, do compositor português do séc. XVI Vicente Lusitano, mestiço nascido em Olivença

Heu me, Domine, do compositor e teórico musical português Vicente Lusitano (ca. 1520 – ca. 1561), pelo Huelgas Ensemble, da Bélgica. A riqueza cromática deste moteto, que quase parece ter sido composto neste nosso séc. XXI, corrobora a afirmação feita por musicólogos de que Vicente Lusitano foi o maior compositor português do Renascimento e até mesmo de todos os tempos

02 março 2026

O guardião de um túmulo


Guardião de um túmulo, escultura chinesa de autor anónimo, feita de laca, madeira, chifres e pigmento, destinada a ser colocada no lado de dentro da entrada de um túmulo, com a finalidade de proteger a alma do defunto ou, talvez, de escoltá-la a caminho do Além. Esta curiosa escultura data de cerca de 300 A.C. e é proveniente do antigo Estado de Chu, do período dos Estados Combatentes (475 A.C.–221 A.C.), na atual província de Hubei, localizada no centro da China. Museu de Arte de Birmingham, Inglaterra, Reino Unido
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