17 março 2026
15 março 2026
A Dança da Vida Humana
O pintor Nicolas Poussin foi o fundador da escola francesa do Classicismo, que se caracterizou pela harmonia, pela claridade e pela procura de uma beleza ideal. Esta corrente nasceu como reação à aparente irracionalidade do Maneirismo, que lhe antecedeu, e em oposição aos excessos do Barroco, com o qual coexistiu. Contemporânea da extraordinária obra barroca de Caravaggio e de Rembrandt, por exemplo, a corrente classicista teve em Nicolas Poussin e no italiano Annibale Carracci dois dos seus mais destacados representantes. O quadro A Dança da Vida Humana, de Nicolas Poussin, nomeadamente, tem em si os ingredientes próprios do Classicismo do séc. XVII.
No centro e preenchendo boa parte do quadro, quatro pessoas que dançam em roda chamam a nossa atenção imediata, mas não são elas as figuras mais importantes desta pintura. A figura mais importante é o Tempo, simbolizado pelo velho alado, calvo, de barba branca e tocando um instrumento musical, que se vê à direita. É a música tocada pelo Tempo que faz os humanos dançar.
Bem no centro do quadro, a figura humana mais destacada, das quatro que dançam em roda, é uma mulher que representa a Riqueza, com o seu cabelo ornamentado de pérolas e com sandálias douradas nos pés. À esquerda está outra mulher, que lança um olhar malandro e sedutor para nós. Simboliza o Prazer. De costas, vê-se o único homem da roda, descalço e com uma coroa de louros na cabeça. Representa o Trabalho. À direita está uma terceira mulher, também descalça e com um pano enrolado na cabeça. É a Pobreza, à qual a Riqueza parece ter relutância em dar a mão.
No extremo esquerdo do quadro vê-se uma coluna com duas cabeças esculpidas em sentidos opostos. Uma cabeça olha para o futuro e a outra volta-se para o passado. Sentado no chão ao pé da coluna, um menino faz bolas de sabão, em representação da efemeridade da vida humana. No outro extremo e também sentado no chão aos pés do Tempo, outro menino segura uma ampulheta, lembrando-nos que o tempo escorre sem cessar.
Na parte superior do quadro e pousada sobre uma nuvem, uma outra composição pictórica surge em tons mais ou menos esfumados. De pé sobre um carro puxado por quatro cavalos e envolto por uma circunferência, que representa a eternidade, está Apolo, o deus que determina a sucessão dos dias e das noites. À direita, voando à frente do carro de Apolo, está a Aurora, espalhando flores brancas sobre a terra. Acompanhando o carro de Apolo e no seu rasto, um cortejo de figuras femininas simboliza a sucessão das Horas.
Uma paisagem imaginária e bucólica serve de fundo a todo este conjunto de figuras alegóricas e preenche os espaços vazios da tela.
Em suma, a composição deste quadro apresenta-se-nos de forma harmoniosa e clara, como é timbre do Classicismo.
08 março 2026
Confecção de um poema esfarrapado
confessou: «sou uma aranha preguiçosa.» na época eu representava, p'ra mim mesmo, o papel de andarilho-pedinte. gostei da única teia daquela aranha — ia de encontro à minha ideia de desobjecto. era uma teia muito rota, tinha mais buraco que fio: «é p'ra poupar baba», explicou a aranha, enquanto arrastava um pouco mais a posição. «você gosta de fazer poemas?, leve essa teia consigo. ela apanha mais pessoas que moscas. e responde bem a desejos idiotas.» quis agradecer à aranha, mas ela: «agora desvie-se do caminho do sol.»hoje em noite imito a aranha preguiçosa: por vezes deixo essa teia aberta no meio de nenhuma tarde. por vezes estendo a teia numa madrugada brilhante. de manhã encontro na teia fiapos inexplicáveis da natureza e da natureza das pessoas. guardo sempre no bolso um pouco da baba que essa aranha me ofertou. com fios dessa baba faço remendos nesses fiapos, tal igual a tia maria fazia aquelas almofadas bonitas na sala da nossa infância. a confecção de poemas a partir de fiapos inconcretos é uma arte diferente da feitura de almofadas, até porque as almofadas podem ainda ter utilidade apalpável.
tenho pena que a tia maria não tenha cruzado a berma da estrada desta aranha. incríveis almofadas teriam ornamentado a nossa infância…
Ndalu de Almeida, escritor angolano que usa como pseudónimo literário Ondjaki
06 março 2026
Esta maneira de chorar dentro de uma palavra
“
Em 1971, em Angola, depois de uma acção de pirataria”(pirataria era os helicópteros sul-africanos deixarem a tropa a quatro metros do chão e destruir tudo)
fiquei com uma menina kamessekele que sobrou, não sei como, daquela benfeitoria. Os kamessekeles são um povo amarelado que se exprime numa espécie de estalinhos da língua e sons vindos do fundo da garganta. A menina devia ter cinco ou seis anos, o cabelo ruivo da fome e empurrava adiante de si uma barriga imensa.Viveu comigo algum tempo, na enfermaria que era uma casa em ruína num sítio chamado Chiúme. A barriga diminuiu e o cabelo tornou-se escuro. Dentro do arame farpado, para onde quer que eu fosse, vinha atrás de mim.
Um dia, ao voltar da mata, não a encontrei. Não me deram explicação alguma. Para quê? As coisas passavam-se dessa forma e acabou-se. Mas demorei muito tempo a esquecê-la e ainda me lembros dos seus olhos que não exprimiam nada. Se calhar os meus olhos também não exprimiam nada. O que poderiam exprimir? Visitávamos o barraco onde os caixões esperavam e perguntávamos
— Qual vai ser o meu?
Não deitados, caixões de pé contra a parede, todos iguais. Também me lembro do sopro do maçarico a soldá-los, o que se fazia o mais cedo possível dado que os mortos apodrecem depressa naqueles lugares de calor
— Qual vai ser o meu?
e no dia seguinte os helicópteros de novo. Uma ocasião trouxeram uma mulher grávida. Um oficial que andava connosco nessa altura empurrou a mulher para o armazém dos caixões e, à minha frente, obrigou-a a colocar um dos pés sobre uma urna e penetrou-a sem baixar as calças, abrindo a breguilha apenas.
Noutra ocasião apanhou-se um guerrilheiro só com uma perna. Para ali estava sentado no chão, de pedaço de corda amarrado ao pescoço. Isto foi em Gago Coutinho. Quando se saía, colocava-se o inimigo no guarda-lamas do rebenta-minas e ele gritava de pavor o tempo inteiro. Desapareceu também.
Tudo era muito atreito a desaparecer nessa época, tirando aqueles que o chefe da Pide enforcava numa árvore e lá ficavam. Também me lembro dos pés dos enforcados mas não de uma forma tão clara. Isto foi numa aldeia chamada Chiquita. O chefe da Pide de Gago Coutinho, em contrapartida, era mais civilizado: preferia aplicar choques eléctricos nos testículos e num gesto de simpatia convidou-me a assistir. Esse acto designava-se por reeducação. Se um reeducado morria enterrava-se em cima de uma prancha.
Tudo estava reduzido a pontos: uma arma apreendida tantos pontos, um canhão sem recuo tantos pontos, um inimigo tantos pontos. No caso de conseguirmos um certo número de pontos mudavam o batalhão para um lugar mais calmo, e foi quando nos mudaram para um lugar mais calmo, sem guerra, que os soldados principiaram a suicidar-se.
Uma noite entrei no lugar dos beliches. Um cabo na cama de cima encostou a G3 à base do queixo, disse
— Até logo
e disparou. Em Maribanguengo. Bocados de miolos e de osso espalmaram-se no zinco do tecto e ele durou três horas, sem metade da cabeça, a deixar de repirar. Também me lembro do
— Até logo
e do disparo, mas houve tantos disparos em Angola que talvez o que lembro não fosse o dele. Tantos disparos como os ruídos das folhas dos eucaliptos de Cessa.
Em Marimba um dos lavadeiros roubou uma camisa a um alferes. Os lavadeiros teriam quinze anos se tanto. Então estenderam-nos lado a lado e deixaram-lhes cair brasas de cigarro em cima. Isto sucedeu pouco antes de nos virmos embora para Portugal. Visto que ficaram cheios de marcas e de pústulas pediu-se conselho a um agente da Pide que solucionou o problema depois de repreender brandamente o alferes sugerindo-lhe que daí em diante fizesse as coisas como deve ser.
A semana passada um homem procurou-me no hospital. Trabalhava com o rádio e foi ele quem me anunciou o nascimento da minha filha, que só vários meses depois encontrei. O rádio tinha sido um quase garoto então, e dei com um quase velho.
Mostrou-me o retrato do último jantar da Companhia. Quase velhos todos, impossíveis de reconhecer na sua quase velhice. Ele apontava e dizia os nomes, o furriel Este, o sargento Aqueloutro, a estudar o retrato com ternura.
Entre eles, acho eu, o maqueiro com quem andei na picada a segurar os intestinos nas mãos e a estendermos numa espécie de oferenda. Observei o furriel Este e o sargento Aqueloutro. Aí estavam a sorrir, quase velhos, quase alegres, agarrando-se pelos ombros e no entanto deu-me a impressão que os olhos deles continuavam a não exprimir nada, conforme os olhos da menina kamessekele não exprimiam nada. Ou se calhar os olhos dos quase velhos exprimiam. Eram brancos, não pretos, e o facto de não exprimirem nada pode muito bem ter sido defeito do fotógrafo.
António Lobo Antunes (1942–2026), in Segundo Livro de Crónicas






