06 julho 2026

Ao pé dũa alta faia vi sentado

Ao pé dũa alta faia vi sentado,
Num vale deleitoso e bem florido,
A Almeno, pastor triste e namorado.

Outro no mundo pôde haver nascido
Mui queixoso de Amor; porém não tanto,
Como este amante, por amar perdido.

Já Vénus ia recolhendo o manto
Escuro com que a terra se mostrava,
Pera ajudar de Almeno o triste pranto.

Apolo sobre os montes derramava
Seus dourados cabelos, que faziam
Ao triste inda mais triste do que estava.

As flores por o prado se estendiam;
E das que finas mais eram as cores,
Brancas, roxas, as Ninfas mais colhiam.

Já guiavam seus gados os pastores,
Que deixando-os no campo deleitoso,
Com elas praticavam só de amores.

Mas era esta alegria um perigoso
Estado para Almeno entristecido;
E por isso a deixava pressuroso,

Buscando outro lugar: contra Cupido
Claramente exclamava, e o arguia
De contrário, de astuto e fementido.

De quando em quando a frauta que tangia,
Números dava ao ar tão docemente,
Que as aves provocava a melodia.

Cego assi desta dor, deste acidente,
Com os olhos em lágrimas banhados,
Postos no Céu, dezia tristemente:

Se, Amor, eu te ofendi com meus cuidados,
Porque mos deste tu pera ofender-te,
Quando livre vivia nestes prados?

Não vês quanto me negas merecer-te
O bem que me mostravas, se deixasse
Ferir meu coração pera sofrer-te?

Qual bem me hás dado, Amor, que me durasse?
Ou qual me hás prometido, que hajas dado?
Ou qual deste, que muito não custasse?

Mostra-me quem pusesse em tal estado,
Que pudesse viver de ti contente,
Ou quem de ti não fosse lastimado?

Inimigo cruel de toda a gente,
Já não quero teu bem, só meu mal quero;
Se de ti nem meu mal se me consente.

Inda que de teus bens já desespero,
Não desprezo dos males o tormento;
Antes o prezo mais, quando é mais fero.

Arrebatado deste pensamento
Ia o triste pastor com um contino
Pranto, que lhe avivava o sentimento.

Quando entrou num vergel de esmalte fino,
Que era de Amor plantado; e parecendo
Lhe está menos humano que divino.

Nele a dor sua esteve suspendendo:
Porém não, como cervo, está ferido,
Repara ao mal que leva pretendendo.

Aparecia o sítio tão florido,
Que provocava a não vulgar espanto,
Entre uns altos ulmeiros escondido.

Dum cristalino orvalho tinha o manto,
Quando entrou nele o mísero pastor,
E as tenções explicou neste seu canto:

Ó belas rosas, vós que sois amor,
É por dita humildade, ou é baixeza,
O ter a par de vós murta, que é dor?

Papoulas conversais, que são tristeza!
Não desprezais o cardo, que é tormento!
Admitis a hortelã, sendo crueza!

Dos goivos longe vejo o sentimento;
Dos jasmins perto estou vendo o perigo;
Dos malmequeres vejo o sofrimento.

Deste me temerei como inimigo;
Mas traz por armas salva, que é razão:
Com ela acabará também comigo.

As minhas vêm a ser ũa afeição,
Que são os puros cravos misturados
Coa vontade sujeita, que é limão.

Ai mosquetas, que sois de amor cuidados!
Ai crespa manjerona, que és prazer!
Vós sós devíeis adornar os prados.

Não podem dous opostos juntos ser:
Onde se põe giesta, que é lembrança,
Junto do rosmaninho, que é 'squecer?

Bem pesa do leve álamo a mudança;
Do roxo goivo anima o pensamento,
Do cipreste odorífero a esperança.

O trevo, que é sentido apartamento,
Cerca o manjericão, que se interpreta
Memória a quem ofende o esquecimento.

Mais importuna que o jardim de Creta,
A ameixieira a flor está soltando:
A segurelha vejo, que é discreta.

As ervas que daqui irei tomando,
São a pura cecém, que é saudade;
Cravos, medo de ver qual de amor ando.

E, de ter mui perdida a liberdade,
Tomarei madressilva entendimento;
Legação tomarei, porque é verdade.

Marmeleiro me dá arrependimento:
Por a salva, que é gosto, tomarei
Coentro oposto ao meu contentamento.

Conhecimento firme nunca achei,
Que violetas são; e, quando o houvera,
Qual meu dano então fora, bem o sei.

Oh quem, erva cidreira, oh quem pudera
Ver-vos aqui menor, pois sois vitória,
Que de mim alcançou chama severa!

Mas se quereis que tenha algũa glória,
Por galardão de amar e ser sujeito,
Perderei de tormentos a memória.

Porém, pois mo negais, de todo enjeito
A palma, que é ventura; e na parreira,
Que é 'sperança perdida, me deleito.

Entretanto coa flor da laranjeira,
Que é desafio duro e arriscado,
Posso arguir da hora derradeira.

Já não se quer deter o meu cuidado
Com a romã descanso; a brevidade
Das maravilhas só tem desejado.

E vós, ovelhas minhas, sem piedade
Vos apartai de mim, se algum desejo
Tendes de ter do pasto mais vontade.

Se muita de me verdes em vós vejo,
Toda a minha de ver-vos hei perdido
À força do poder de amor sobejo.

Lograi do Tejo o plácido ruído;
Sós lograi estas veigas florecidas:
Pois se perde o pastor vosso querido,

Não gosteis de com ele ser perdidas.

Luís Vaz de Camões (1517?? 1524? 1525? – 1580)


Uma faia (Fagus sylvatica) (Foto de autor desconhecido)

03 julho 2026

Miguel Ângelo Lupi


Retrato da Viscondessa de Castilho, Cândida Castilho, 1874, óleo sobre tela de Miguel Ângelo Lupi (1826–1883), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa
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Retrato de D. Pedro V, óleo sobre tela de Miguel Ângelo Lupi (1826–1883), Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa
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Retrato de Catraio e Mariana, também conhecido por "Os Pretos de Serpa Pinto", c. 1879, óleo sobre tela inacabado de Miguel Ângelo Lupi (1826–1883), Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa
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De mãe portuguesa e pai italiano, o pintor Miguel Ângelo Lupi nasceu em Lisboa em 1826 e em Lisboa faleceu em 1883. Frequentou o curso de pintura da Academia de Belas-Artes de Lisboa, mas foi obrigado pela família a matricular-se na Escola Politécnica de Lisboa, com vista a seguir uma carreira no Estado. Trabalhou na Imprensa Nacional, passou dois anos em Angola como funcionário público e regressou a Portugal para trabalhar na Junta de Fazenda Pública e no Tribunal de Contas. Apesar de ter seguido uma carreira profissional no funcionalismo, Miguel Ângelo Lupi nunca deixou de pintar. O retrato que ele fez do rei D. Pedro V, que lhe fora encomendado pelo Tribunal de Contas e que foi muito elogiado, permitiu-lhe partir para Roma com uma bolsa de estudo. Quando regressou a Portugal, tornou-se professor de Pintura Histórica na Academia de Belas-Artes de Lisboa.

Miguel Ângelo Lupi foi essencialmente um pintor do Romantismo, mas também já fez algumas incursões pelo Naturalismo e pelo Simbolismo. Ele foi, sobretudo, um retratista de grande mérito.

A tela Retrato de Catraio e Mariana merece uma atenção especial. Este quadro deve ter sido pintado durante os dois anos em que Miguel Ângelo Lupi viveu em Luanda, tendo ficado incompleto, provavelmente porque o pintor entretanto regressou a Portugal. Um qualquer pintor europeu da sua época — ou mesmo de épocas posteriores — teria pintado um quadro que de certa forma evocasse o exotismo de uma África que muitos europeus viam como «misteriosa e feiticeira». Ora Miguel Ângelo Lupi não fez nada disso. Em vez de representar o pitoresco local ou de fazer um apontamento etnográfico de gentes com costumes diferentes dos seus, Lupi pintou um quadro cheio de humanidade, em que um casal cruza olhares carregados de ternura. Ao pintar esta sua tela, Miguel Ângelo Lupi comportou-se como um africano. A este quadro foi também dado o nome de "Os Pretos de Serpa Pinto", porque Catraio e Mariana tinham sido contratados pelo explorador Serpa Pinto para acompanhá-lo na sua expedição ao interior de África.