19 outubro 2026
17 outubro 2026
Armas de guerra
Alças, miras, canos
Culatras, câmaras, bandoleiras
Coronhas, molas, percutores
Gatilhos, balas, carregadores
Suor, sangue, tristeza
Caminho, doença, sofrimento
Tensão, dúvida, hesitação
Morte, destino, oração.
Facas, catanas, bazucas
Carros, barcos, aviões
Minas, granadas, subversões
Poemas, guerras, ilusões
Lua, terra, sol
Espaço, mar, infinito
Voz, dor, canção
Armas, grito, solidão.
(Maio de 1971)
Augusto Guerra, Do Objectivo à Dramatização do Tempo: Poemas, 1992, Edição do Autor, Marinha Grande
13 outubro 2026
Ave, Verum Corpus, de Mozart
10 outubro 2026
Louvando e deslouvando uma dama
CANTIGA VELHA
Sois fermosa e tudo tendes,
Senão que tendes os olhos verdes.
VOLTAS
Ninguém vos pode tirar
Serdes tão bem assombrada;
Mas heis-me de perdoar,
Que os olhos não valem nada.
Fostes mal aconselhada
Em querer que fossem verdes:
Trabalhai de os esconderdes.
A vossa testa é jardim,
Onde Amor se desenfada;
É [tão] branca e bem-talhada,
Que parece de marfim.
Assim é; e quanto a mim,
Isso vos nasce de a terdes
Tão perto dos olhos verdes.
Os cabelos desatados
O mesmo sol escurecem;
Senão que, por ser andados,
Algum tanto desmerecem;
Mas, à fé, que se parecem
A furto dos olhos verdes,
Não vos pese, de os terdes.
As pestanas têm mostrado
Ser raios que abrasam vidas;
Se não foram tão compridas,
Tudo o mais era pintado;
Elas me tinham levado
A alma, sem o vós saberdes,
Senão foram os olhos verdes.
O mimo desse carão
Nem pôr-lhe os olhos consente;
E ser liso e transparente
Rouba todo o coração
Inda assim achareis nação
Que lhe não pese de os verdes;
Mas não seja cos olhos verdes.
Esse riso, que é composto
De quantas graças nasceram,
Senão que alguns me disseram
Vos faz covinhas no rosto.
Na vontade tenho posto
Dar-vos a alma, se quiserdes,
A troco dos olhos verdes.
Nunca se viu, nem se escreve
Boca cuma graça igual,
Se não fora de coral,
E os dentes de cor de neve.
Dou-me eu a Deus que me leve!
Sofrerei quanto tiverdes,
Não me tenhais olhos verdes.
Essa garganta merece
Outras palavras não minhas,
Senão que é feita em rosquinhas
De alfenim, ao que parece.
Eu sei bem quem se oferece
A tomar tudo o que tendes,
E também os olhos verdes.
Essas mãos são ferropeias,
Só o vê-las enfeitiça;
Senão que são alvas, cheias,
E têm a feição roliça;
Com que apelais por justiça,
Pera com elas prenderdes
Quem vê vossos olhos verdes.
A vossa galantaria
Matará a quem falardes;
Tendes uns desdéns e tardes
Que eu logo vos roubaria.
Oh dou-me a Santa Maria!
Sou cujo de quanto tendes,
E também desses olhos verdes.
Luís Vaz de Camões (1517?? 1524? 1525? – 1580)
07 outubro 2026
Nuno Gonçalves
Sempre que se aborda a pintura de Nuno Gonçalves, mergulha-se num infindável mar de dúvidas, de incertezas e de suposições, pois os dados concretos existentes são muito escassos.
Desde logo, a ignorância é praticamente total sobre a biografia deste notável pintor, à semelhança do que acontece com muitos outros artistas da sua época, e mesmo de épocas posteriores. Quando muito, pode-se dizer que tudo indica que Nuno Gonçalves viveu no séc. XV e desempenhou o cargo de pintor régio de D. Afonso V.
Por outro lado, não existe qualquer certeza de que as pinturas que lhe são atribuídas tenham sido realmente feitas por ele, nem sequer os Painéis de S. Vicente. Por isso, não nos preocupemos muito em tentar descobrir se foi mesmo Nuno Gonçalves quem pintou os Painéis e outros quadros, ou querer adivinhar quem são as pessoas que estão retratadas nos Painéis. Muitos estudiosos já o tentaram — e muitos mais continuarão a tentar — mas até agora não chegaram a uma conclusão definitiva. Por exemplo, o rapaz que está representado à direita no chamado Painel do Infante será o futuro rei de Portugal D. Afonso V? O homem retratado a seu lado de chapeirão na cabeça será o infante D. Henrique? Ou será o infante D. Pedro, regente do Reino? O próprio pintor estará também retratado nos Painéis? Se sim, onde? Nada se sabe ao certo.
02 outubro 2026
Morreu o artista palestiniano Sliman Mansour
(Clicar na imagem para ampliá-la)
Morreu no passado mês de agosto o artista plástico Sliman Mansour, que foi uma das figuras mais destacadas da arte palestiniana recente. Sliman Mansour nasceu em Birzeit, perto de Ramallah, no ano de 1947. Estudou na Academia Bazalel de Artes e Design, em Jerusalém, e continuou os seus estudos em Beirute e Washington. Fez numerosas exposições individuais e coletivas pelo mundo fora, abordando temas da vida, da cultura e da resistência do povo da Palestina. Por ocasião da primeira Intifada, ocorrida entre 1987 e 1993, e juntamente com os artistas Vera Tamari, Tayseer Barakat e Nabil Anani, Sliman Mansour formou o grupo New Visions que, aderindo ao boicote então decidido à compra de produtos provenientes de Israel, começou a utilizar meios de expressão pouco convencionais, tais como lama, palha, pele de cabra, madeira, etc.
As obras de Sliman Mansour que a seguir se reproduzem foram publicadas pelo próprio artista na sua página pessoal no Instagram, juntamente com outras mais. A dificuldade esteve na escolha.





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